O Nordeste concentra 80% do potencial eólico brasileiro e lidera a geração de energia solar. Mas enquanto a região exporta energia limpa para o Sul e Sudeste, comunidades locais ainda convivem com apagões e tarifas altas. Quem se beneficia da transição energética?
O vento que sopra no litoral do Ceará e na Chapada do Araripe não é apenas poético — é dinheiro. O Nordeste brasileiro concentra hoje 80% da capacidade instalada de energia eólica do país e lidera a expansão da energia solar. Em termos absolutos, a região que por décadas foi associada à seca e ao atraso econômico tornou-se a fronteira da transição energética brasileira.
Mas há uma pergunta que os números de capacidade instalada não respondem: quem está se beneficiando disso?
A resposta, segundo pesquisadores e lideranças comunitárias, é mais complexa do que os comunicados das empresas de energia sugerem. A maior parte da energia gerada no Nordeste é transmitida para o Sul e Sudeste, onde está concentrada a demanda industrial. As comunidades que convivem com os parques eólicos e solares — muitas vezes em municípios pequenos do interior — recebem royalties modestos e enfrentam impactos ambientais que raramente aparecem nos relatórios de sustentabilidade.
"Tem parque eólico na minha cidade há sete anos. A tarifa de energia aqui é uma das mais caras do estado", diz o vereador Antônio Neto, de Camocim, no litoral oeste do Ceará. "Onde está o benefício para a população local?"
A pergunta tem resposta técnica: a energia gerada entra no Sistema Interligado Nacional e é distribuída conforme a demanda, sem prioridade geográfica. O benefício local se dá principalmente via impostos municipais (ISS e IPTU sobre os parques) e royalties pagos aos proprietários de terra onde os aerogeradores são instalados.
Mas esses benefícios são distribuídos de forma desigual. Proprietários de terra — frequentemente fazendeiros de médio e grande porte — recebem os royalties. Trabalhadores rurais e pequenos agricultores que vivem nas proximidades dos parques relatam perturbações sonoras, restrições ao uso da terra e, em alguns casos, pressão para vender ou arrendar propriedades.
A pesquisadora Lara Menezes, do Instituto de Pesquisas e Estratégias Econômicas do Ceará (Ipece), publicou em 2025 um estudo que mostra que municípios com alta concentração de parques eólicos não apresentam melhora significativa em indicadores de desenvolvimento humano em comparação com municípios vizinhos sem parques. "A riqueza é gerada, mas não fica", resume ela.
Isso não significa que a expansão das renováveis seja negativa para o Nordeste. O setor emprega diretamente mais de 45 mil pessoas na região, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica. E há iniciativas promissoras de uso local da energia, como projetos de hidrogênio verde no Ceará e Piauí, que podem criar cadeias produtivas mais densas.
O desafio é garantir que a transição energética não reproduza o padrão histórico de extração de recursos naturais do Nordeste para benefício de outras regiões. "A energia do vento é nossa. A pergunta é se o desenvolvimento que ela gera também vai ser", diz Adriana Lima, coordenadora do Observatório das Energias Renováveis do Nordeste.