Fortaleza consolidou-se como o terceiro maior polo de startups do Brasil, atrás apenas de São Paulo e Belo Horizonte. O que está por trás desse crescimento — e quais são os gargalos que ainda limitam o ecossistema?
Quando a Loja Integrada, plataforma de e-commerce para pequenos lojistas fundada em Fortaleza, foi adquirida por um grupo americano em 2024 por valor estimado em R$ 180 milhões, o evento foi celebrado como prova de que o ecossistema de startups cearense havia chegado a um novo patamar.
Não foi um caso isolado. Nos últimos três anos, pelo menos oito startups com origem em Fortaleza receberam aportes acima de R$ 10 milhões ou foram adquiridas por grupos maiores. O número de empresas de tecnologia registradas no estado cresceu 67% entre 2022 e 2025, segundo dados da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ceará.
O que explica esse crescimento? A resposta tem várias camadas.
A primeira é a aposta histórica do governo estadual em educação tecnológica. O Ceará tem, há mais de uma década, um dos melhores resultados do país no IDEB para o ensino fundamental. Isso criou uma base de jovens com melhor formação básica, que chegam às universidades e cursos técnicos mais preparados.
A segunda é a concentração de instituições de ensino superior de qualidade em Fortaleza — UFC, IFCE, Unifor — que formam engenheiros, cientistas da computação e administradores que alimentam o mercado de tecnologia local.
A terceira é o custo de vida. Fortaleza ainda é significativamente mais barata do que São Paulo e Rio de Janeiro para montar uma operação. Isso atrai fundadores que querem esticar o capital inicial e empresas que buscam centros de desenvolvimento a custo menor.
"Eu poderia ter ido para São Paulo. Mas aqui eu consigo contratar engenheiros bons por um salário que em SP não pagaria nem um júnior", diz Rafael Mota, fundador de uma fintech de crédito para MEIs que opera em Fortaleza desde 2021.
Os gargalos, porém, são reais. O acesso a capital de risco ainda é limitado — a maioria dos fundos de venture capital brasileiros está concentrada em São Paulo e tem dificuldade de avaliar e acompanhar empresas no Nordeste. Startups cearenses frequentemente precisam "migrar" para São Paulo para acessar rodadas maiores de investimento.
Outro desafio é a retenção de talentos. Profissionais seniores de tecnologia formados em Fortaleza frequentemente recebem propostas de empresas de São Paulo, Rio ou do exterior que oferecem salários que o mercado local não consegue competir.
"A gente forma talento e exporta", diz a professora Carla Bezerra, do Departamento de Computação da UFC. "Precisamos criar condições para que esses profissionais queiram ficar."
O ecossistema está crescendo, mas ainda é jovem. A próxima fase — criar empresas que se tornem referência nacional e global mantendo sede no Nordeste — é o verdadeiro teste.