Com chuvas cada vez mais irregulares e temperaturas em alta, agricultores familiares do Semiárido cearense estão adotando técnicas de convivência com a seca que combinam conhecimento tradicional e inovação. Os resultados surpreendem.
Na comunidade de Lagoa Seca, município de Quixadá, no Sertão Central do Ceará, o nome do lugar parece uma profecia cumprida. A lagoa que deu nome ao distrito secou pela última vez em 2012 e nunca mais encheu completamente. Mas as famílias que vivem ali não foram embora — e estão produzindo mais do que há dez anos.
O segredo, se é que se pode chamar assim, é uma combinação de técnicas antigas e novas que os agricultores chamam simplesmente de "convivência com o Semiárido". Cisternas de placas que captam água da chuva. Barreiros trincheira que retêm umidade no solo. Sistemas agroflorestais que combinam culturas alimentares com espécies nativas da Caatinga. E, mais recentemente, sensores de umidade do solo conectados a aplicativos de celular que ajudam a decidir quando e quanto irrigar.
"Antes a gente plantava esperando a chuva. Agora a gente planta sabendo usar a água que tem", diz o agricultor José Eustáquio, 61 anos, que cultiva milho, feijão e palma forrageira em dois hectares.
A transformação não aconteceu por acaso. Ela é resultado de décadas de trabalho de organizações como a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), que desde os anos 1990 promove a construção de cisternas e a difusão de tecnologias sociais adaptadas ao clima local. Mais de 1,3 milhão de cisternas foram construídas no Semiárido brasileiro com apoio do programa, beneficiando cerca de 6 milhões de pessoas.
Nos últimos anos, o trabalho ganhou uma dimensão nova com a chegada de tecnologias digitais. A Embrapa Semiárido desenvolveu um aplicativo que cruza dados de previsão climática, tipo de solo e culturas plantadas para recomendar práticas de manejo. O app já foi baixado por mais de 80 mil agricultores no Nordeste.
"A tecnologia não substitui o conhecimento do agricultor. Ela potencializa", diz a pesquisadora Ângela Pires, da Embrapa. "O agricultor sabe o que a terra dele precisa. A gente ajuda com informação que ele não teria de outra forma."
Os resultados são visíveis. Em municípios do Ceará onde o programa de cisternas tem maior cobertura, a taxa de êxodo rural caiu 40% em relação à média estadual, segundo dados do IBGE. A produção de alimentos para autoconsumo cresceu, reduzindo a dependência de compras no mercado.
O desafio agora é escala e continuidade. Programas como o de cisternas dependem de financiamento público que oscila com as mudanças de governo. E as mudanças climáticas estão tornando o Semiárido ainda mais imprevisível — o que exige adaptação constante das técnicas.
"A seca sempre existiu aqui. O que mudou é que agora a gente tem ferramentas para viver com ela, não contra ela", diz José Eustáquio, olhando para o roçado verde que contrasta com o céu sem nuvens de abril.